Teve um tempo em que a gente se encontrava na praça. Muitos desses encontros eram promovidos após missas ou cultos, seja domingo pela manhã ou sábado à noite, mas todos eles levavam para os bancos das praças. Um verdadeiro evento social. Ali a vida acontecia. Apertos de mãos, comentários sobre o tempo e uma pergunta certeira: você é filho de quem?
Era assim. Antes mesmo de dizer seu nome, você já vinha com a legenda ou crachá e seus dizeres: filho de fulano, da família tal. Isso era suficiente. A cidade era pequena, a identificação se dava pela família e você era aquilo ali mesmo.
Depois de um tempo a vida andou. Vieram as cidades grandes. Mais gente, um breve anonimato. Os encontros mudaram de lugar. Saíram das praças, ocuparam os shoppings, bares ou baladas. Todo mundo esperava alguma coisa de sábado a noite. Mas a pergunta mudou, passou a ser sabatina: você faz o que, trabalha onde, estudo o que, mora onde. Não era mais sobre de quem você vinha, mas sim sobre o que você faz da vida. A identidade passou a ser construída no tempo presente. O sobrenome perdeu força. O projeto de vida ganhou.
Daí tudo acelerou de vez. Foi a vez das madrugadas na frente da tela, computadores e teclados. Salas de bate-papo, nicknames duvidosos, ICQ apitando e MSN piscando. Ali, no virtual, ninguém queria saber de pai, mãe, faculdade ou profissão. Às vezes nem nome. Bastava estar online e responder rápido. Sumir era quase morrer socialmente naquele tempo de “second life”. A vida havia virado presença digital. Quem aparecia mais, existia mais. (temo que ainda hoje seja assim, mas, preciso avançar para o próximo parágrafo).
Em algum momento as coisas mudaram de novo. A sensação de que a cabeça estava cheia demais e o corpo esquecido fez o físico ganhar espaço. As academias começaram a aparecer. No início meio sem jeito, passou pela prescrição médica, virou hábito e hoje é ponto fixo. Lugar de encontro, de observação, de reconhecimento. Como não seria diferente, fez a pergunta mudar de novo: você treina onde?
Não é curiosidade, é quase um teste de afinidade. Fala muito sobre a pessoa. Horário, disciplina, paciência, rotina. Diz até sobre o tipo de conversa que ela aguenta. Quem treina no mesmo lugar se reconhece. Às vezes não sabe nome, mas sabe rosto, horário, aparelho preferido. Um aceno de cabeça resolve. Já é vínculo.
No fim das contas, a academia virou o que a praça já foi, o que o bar, balada ou shopping já foram e o que a internet tenta ser: um lugar onde a gente confirma que ainda está ali, vivo, em movimento, tentando manter inteiro.
Talvez seja isso. Depois de passar pela identidade herdada, pela identidade profissional, pela identidade virtual, sobrou o corpo. Treinar virou uma forma simples de dizer: estou cuidando de mim. Enquanto dá.
E se alguém puxar conversa perto do bebedouro, não se assuste. É só o velho hábito humano tentando se adaptar de novo. A pergunta muda, a necessidade é a mesma.