Poesia ao dois do onze

Ela não se despediu dele com o lenço em punho
ou acenando ao vê-lo partir a bordo do transatlântico.
Não sorriu depois do beijo que ele soprou em sua direção
na estação de trens.
Nem lacrimejou após a aeronave levantar vôo
na pista de decolagem.

Não ouve suspiro, nem grito dor.
O silêncio ocupou o ambiente.
Ela apenas fechou os olhos.
Assim se despediu dele para sempre.

Eu e o poeta

Afinei o violão
Com medo da harmonia
Os verbos conjuguei
Mas nada de poesia
Aflito e sem rima
Invoquei o poeta

O pintor das palavras falou,
que a rima não é solução
E com jeito de anjo torto
ele ainda sussurrou:
Você também é canhoto




Biza e o Ipê-amarelo


A manhã fria de julho já ocupara o lugar da noite, que fora longa e também fria, quando aquela mulher -vou chamá-la de Biza- que dormia na calçada acordou.

Devagar ela se desfez das folhas de jornal que cobriam-lhe o corpo fingindo proteger-lhe a pele, se contorceu sobre o colchão de papelão formado pelos restos de uma caixa de TV e esfregou os olhos como quem é despertado com o abrir inconveniente de uma cortina.

Imóvel e apresentando certa indisposição para começar mais um dia incerto, ela observou as pessoas indo e vindo, a padaria movimentada, o vai e vem dos pedestres e os automóveis barulhentos pela avenida da grande cidade.

Então, como se tivesse o tempo a seu favor, Biza levantou-se lentamente, recolheu seus pertences – uma colher de metal, algumas peças velhas de roupa e um copo plástico tipo descartável – e acomodou-os com cuidado em uma sacola de supermercado achada ao lado de um Ipê-amarelo. Após esses movimentos que pareciam ser tão rotineiros, sentou-se debaixo dessa árvore, que assim como Biza, insistia e resistia aos maus tratos da cidade.

Não demorou muito e ela começou a cochichar ao lado do Ipê. O monólogo era difícil de entender, pois falava baixinho e fazia alguns gestos repetitivos sem muito sentido. Tomado pela curiosidade tentei decifrar o que Biza dizia ao Ipê. Minha investida foi em vão, não consegui identificar o que era dito. Talvez falasse sobre suas histórias; amores, verdades, desilusões. Talvez falasse das flores amarelas que caiam. Talvez contasse o sonho que tivera durante a noite. Talvez fizesse uma prece.

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Em tempo de face

Eu adicionei
Tu aceitaste
Ele solicitou
Nós compartilhamos
Vós comentastes
Eles sabem tudo de nós











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A Mãe que ama

Às vezes, quando te ajeito
O cabelo,
Observo se está mais gordo
Mais velho.
E quero te dar um colo,
Um copo de leite,
Um conselho
Que se aproveite.

Para que fiques fora
Do alcance das balas
Nesse campo
De batalhas

Mônica de Catella. A Mulher que Ama. 1997

Sincronia

Eu que chorei,
Ao ver o sol se pôr
A maré subir
A lua minguar
E ver você ir

Sorri,
Quando o sol nasceu
A maré baixou
A lua cresceu
E você voltou

Sobre coisas, lembranças e infância

atividade-fisica-infancia


De repente começo a recordar de coisas, das coisas, e quando percebo, já fui tomado pelas lembranças. As imagens chegam soltas, aleatórias. É como um álbum de fotografias aberto em qualquer página. Daí eu avanço, ou volto, permaneço por mais tempo em alguma foto, ou passo rapidamente por outras.

Pronto!
Está ai, uma boa lembrança. Álbum de fotografias! Objeto em desuso, em tempo de máquina fotográfica digital. Hoje em vez de foliar um encadernado de retratos sobre o colo, acompanhamos sincronicamente a exibição de imagens frente à tela do computador.

Computador é algo que me faz ter outras lembranças. Penso em computador, passo pela impressora e chego ao mimeógrafo. É como se eu viajasse no tempo. Posso sentir o cheiro de álcool, na folha ainda umedecida que a professora do ensino primário entregava. Não sei dizer se lição, prova ou qualquer outra atividade, mas posso sentir o aroma passear por entre o septo e os sentidos.

Cheiro de livro novo é outro que me faz lembrar escola. Cheiro tem esse poder transcendente de nos transportar mentalmente para tempos e talvez até mesmo espaços esquecidos. Cheiro de mato é outra coisa que me espanta e encanta. Basta sentir aquele perfume de terra misturado a orvalho, para como magia reconhecer e percorrer cenários que não mais existem, a não ser em minhas lembranças.

E por fim me dou conta de que todas essas lembranças se remetem a infância. Evidente que não poderia esquecer de citar a mais saborosa das lembranças. A infância. Época mágica, de sonhos, pura e protegida pelo amor materno.

Imagem: http://goo.gl/jCHx0

Antípoda


As vezes me perco por lá
Não reconheço mais as ruas e estradas
Já não sinto os pés descalços marcar a lama.

Tenho hoje o horizonte cinza
e o asfalto quente que queima a alma.
A serra daqui é maior que a de lá!

De lá, ficaram lembranças
De cá, tenho o agora.

Lá ficou a infância
deitada no banco da cozinha
na casa de minha avó
com os causos que ela contava

Aqui,
a história que ela não contou

Eu e a esfinge

De que importa decifrar o enigma?
De que vale resolver o tal quebra-cabeça?

A esfinge mantém-se firme
Ela nunca se atirou do precipício
Muito menos se estrangulou

Quanto a mim,
Seja manhã, meio-dia, tarde
Quatro, dois, ou três pés
Devoro-me, a cada dia

Quisera

A crônica que chegou
Decidiu ser conto
Ao flertar com poesia

O quadro roubou a cena
Pintou uma rima
Ao som de uma canção

Quisera eu trocar
Todos esses caracteres
Que pensam ser rabiscos
Por crônica ou conto
Verso, pintura ou melodia

No sinal

No sinal vermelho
Parado, pensei em crônica
Haikai no amarelo














Ritual, decisão e desencontro

Todos os dias ele seguia sempre o mesmo ritual. Acordava disposto, se vestia, calçava seu tênis velho, porém confortável, e seguia para sua caminhada matinal.

Extremamente disciplinado mantinha sempre a mesma rotina. O mesmo horário, sempre tudo muito cronometrado. Pelo portão de serviço do prédio chegava à rua, e logo em seguida alcançava a praça do bairro onde caminhava há alguns anos.

Hoje foi diferente. Acordou, seguiu o roteiro de todos os dias até chegar ao portão, e pensativo decidiu fazer outro percurso. “__Todos os dias caminho pela mesma praça, já faz um bom tempo que vejo a mesma paisagem, as mesmas pessoas, o que é pior, sempre caminho em círculos, sempre encontrando as mesmas caras sem graça volta pós volta”.

Assim, nosso amigo, determinado a mudar o trajeto decidiu percorrer por outros destinos. Outros ares, outros olhares. Prosseguiu, virou as costas para a praça, e rumou em busca da avenida principal, onde poderia então cumprir sua meta de andar em linha reta em vez de círculos.

Passara cerca de trinta minutos quando Ele, distraído e contemplando o novo cenário cruzou com uma jovem que também caminhava naquela pista. Ela tinha olhos negros e grandes, os cabelos também negros, lisos, longos e amarrados evidenciavam ainda mais sua sensualidade. As curvas de seu corpo davam ao caminhar uma leveza que parecia fazê-la flutuar, apesar de andar a passos firmes e no pique que caminhada exigia.

Por instantes que pareceram intermináveis, Ele e Ela trocaram olhares. Flertaram. Ambos seguiram em frente. Continuaram a caminhada. Em linha reta em vez de círculos.












Os causos do “Taíde”: Pedralvo Chaves

A experiência milenar diz: "Rir é o melhor remédio". E também: "Feliz quem faz alguém feliz". Como é bom conviver com seres humanos que só amenizam o nosso viver.

Lá pelas bandas do Córrego do Figueira viveu Pedralvo Lopes Chaves ou simplesmente Pedralvo. Sorridente, espanéfico, hiper comunicativo e porque não dizer apreciava demais um rabo de saia. Em uma certa ocasião o Pedralvo foi a São João Evangelista juntamente com Álvaro Pereira, Zé Ruivo e seu Raimundo Barroso, como sempre esse quarteto não deixava de ir à região alegre da cidade, a zona boêmia.

Chegaram, belas meninas, música ao vivo, mancebos elegantes e Pedralvo loco enamorou-se de uma cachôpa; morena, pele sedosa, cabelos encaracolados, lábios cor de mel. Olhos nos olhos, já de mãos dadas, quando já se preparavam para uma romance mais íntimo, seus colegas o alertaram: Pedralvo, daqui na Coluna é longe, as estradas estão péssimas e o tempo duvidoso, seja rápido. A mocinha disse: perai! Ocê é o Pedralvo? Sim. Quantos Pedralvos tem em Coluna? Só eu. Sua esposa chama-se dona Negrinha? É. Então você é meu padrinho de Batismo. Ocê é filha de quem menina? Sou filha de fulano de tal que mora no São Pedro Itimirim, depois do Zeca Gonçalves perto da Emilistrina do João Pereira! Menina, menina, ocê é minha afilhada, deixa eu cair fora antes de fazer mais besteira. Até a volta.

A menina pegou a mão do Pedralvo bejou-a e disse: bença, meu padrinho, dê lembranças a minha madrinha!

Ele chamou os colegas, vamos turma, por nada que eu faço mais uma cachorrada. Se for me confessar com o Padre Sady e contar esse episódio, ele irá mandar eu rezar 300 pai nosso e 300 ave marias. Discunjuro!

Os causos de “Taíde” / O Caminho, ano I-Edição 05 - Pág.:04-Coluna/MG - Junho de 2009

Os causos do “Taíde”: João Amaro e dona Benedita

De todos os causos até agora, só falamos de mono ou bi personagens, mas seria muita falha, faltar a polipersonalização de nossos causos, nossas crônicas pitorescas. 
Viveram na Grota dos Cardosos, João Amaro e dona Benedita. Ele gritador de leilões de primeira classe, lavrador dos bons, ela cujo nome já diz tudo, Benedita, talvez fosse hoje poderíamos cognomina-la "Benedita da Silva", pelo seu carisma, ideal e bela arte de conviver.
João Amaro e dona Benedita moravam entre seu Quinquim Amador e Flor de Almeida numa casa de pau a pique coberta por taquaras, nas paredes, onde o Anatório e Natalina pintavam garatujas quem encantavam a toda a gente. Zezé Amador havia sido seminarista e desistindo voltou para fazenda trazendo consigo duas batinas pretas as quais eram usadas pelos padres com um gorro na cabeça. 
Geralda Amador e Maria de Quintina mas tarde Maria de Sebastião Chaves, sabendo da fé, do entusiasmo e dos cuidados de dona Benedita e de Natalina, combinaram em fazer uma brincadeira com as devotas pretinhas. 
Vestiram-se de Padre e irmã de caridade, mandaram o Zé Caranguejo na frente para avisar: "Dona Binidita, chegou no seu Quinquim um padre e uma irmã e tão vindo visita a sinhora". As duas quase se enlouqueceram: corre daqui, varre dali, tira picumá, limpa a fumaça dos quadros, e foi aquele bá-fá-fá danado.
Quando olharam, já vinham o padre e a irmã de caridade. Geralda Amador o padre e Maria de Quintina irmã. Cabeças baixas, disfarçando tudo, segurando para não rir. Quando chegaram à porta, dona Benedita de joelhos e mãos postas elevadas aos céus, proclamou em voz alta: "louvado seja nosso Senho Jesus Cristo! Benedito o que vem em nome do Senhor". Seu padre quero fazer com o Senhor uma confissão; eu e o Juão tamo brigados, essa noite nós durmiu separado, seu padre pruque ele pegou um xuxo e me deu uma xuxada que quase me matou, aí eu deixei ele duimi no jirau e eu passei a noite com a Natalina, o Senhor me perdoa padre?! E quando ia beijar as mãos ungidas do padre ao levantar os olhos, com aquele  rosto tímido, deparou-se com a Geralda Amador disparada na risada mais a Maria, que ao receber um abraço caloroso da dona Benedita proferiu: "Só assim minhas filhas que esta pobre preta pode ter a visita de dois reverendos. Mas valeu, arregaça as "batina", sente nos cepo que Anatório e Natalina vão passar cana no "iscassadô" e o cafezinho de garapa vai sê raspe e num vai farta o bolinho de caratinga com secas e mecas. Para aquela família, foi o maior presente dos falsos reverendos.

Os causos do "Taíde" / O Caminho, ano I - Edição 10 - Pág.: 03 - Coluna / MG - Novembro 2009

Os causos do “Taíde”: Geraldo Vaqueiro

"Habitua-se a conviver com a vida, sabendo que seus caminhos são muito mais de espinhos do que de flores" (Comece o dia feliz).
E falando em convivência de vida me lembrei dos nossos vaqueiros, homens destemidos, cheios de disposições, que levantam cedinho e vão para o pasto em busca das acas enquanto os bezerros saudosos berram e almejam a chegada da mamãe que desce do alto com o úbere pesado de leite para a aliviada ordenha.
Tínhamos em Coluna, Geraldo Severino da Silva, conhecido por todos domo Geraldo Vaqueiro. Chapéu de couro acabanado, pé pro mato, andado gingado demonstrando ser de fato um sertanejo sem mistura. Foi vaqueiro de seu Aguiar, Sebastião Freitas, Altivo Tavares, seu Getúlio Gonçalves e por fim, vaqueiro para Antônio Amador na Grota dos Cardosos. com o Geraldo era um vaqueiro simplório, o Antônio Amador ficava ali por perto da coberta para apreciar as suas mancadas (gafes).
Aconteceu uma enorme crise de tudo, devido a um forte veranico de janeiro, fevereiro e parte do mês de março, nada era encontrado: feijão, arroz, toucinho, fubá quase não se via. Toucinho, comprava-se um libra e com ela passava-se uma semana. O arroz deu uma crise no Acre e no estado do Maranhão e arroz nem pensar.

O Geraldo ficava com aquilo na cabeça, só pensava na crise: como é que vou tratar dos meus filhos? Falava sozinho em manhã, sol forte, ele foi ao pasto buscar as vacas e o garrote veio no meio e entraram para a coberta. O preocupado vaqueiro, peou a vaca, buscou o banquinho para tirar o leite mas ao invés de sentar-se debaixo da vaca, sentou-se debaixo do garrote, que ao sentir as mãos no seu dolorido saco, deu um forte pulo, coices e rabanadas.
Antônio Amador que assistia a cena disse: O que é isto Geraldo? Você peia a vaca e vai tirar leite no garrote? Vaca é vaca, garrote é garrote! Que bagunça é essa? "É a crise Tôin, é o preço do arroize, a falta da gordura, a casa vazia e os minino passano farata!".
E o garrote com os testículos doendo, com o rabo do olho mirava o Geraldo, e se os animais falassem, talvez ele diria assim: seu vaqueiro, filho de uma rabo aparado, vai tirar leite na comadre da sua madrinha.

Os Causos do "Taíde" / O Caminho, ano I - Edição 12 - Pág.: 03 - Coluna/MG - Janeiro 2010


Imagem: tirandoleite http://goo.gl/fOjqt

Os causos do “Taíde”: Maria Leandro

Foi lá pelas bandas do Bom Sucesso quando uma crise violenta nos finais do governo Artur Bernardes e início do de Washington Luiz que nasceu Maria, para mais tarde ser registrada por seu Lopes escrivão, Maria Leandro Pinto. Maria foi criada ali na roça desde novinha, enfrentando a dura lida naquele tempo de sol a sol. Não teve oportunidades de frequentar escolas, pois era tudo muito difícil, mas seus pais a educaram na fé, na esperança e no amor. Como sempre as zeladoras da igreja, Tereza Quintino, Geralda Tatão, Mariinha e outras sempre entravam em turbilhões com o Padre Sady. Dona Petrina do Juca Lemes arranjou a Maria Leandro para assessorar o padre. Com pouco tempo, passaram a chamá-la Maria do Padre. Chega alguém: "Padre, a Maria do Padre está ai? Aqui não tem nenhuma Maria do Padre não meu caro, tem Maria Leandro!

Certa ocasião, uma cascavel picou a Maria numa moita de banana prata, ela matou a cobra e na ponta do pau a levou para o Padre Sady: "Este bicho me mordeu padre". "Ah Dona Maria, vamos ao hospital". Ao chegar com a cascavel na ponta do pau o Dr. Saint Clair disse: "É isso mesmo que se faz padre! O senhor mata a cobra e mostra o pau!" E o Padre Sady: "Ah! Meu caro, o certo é mostrar a cobra!

É Maria Leandro, a Maria das Chaves, Maria dos Sinos, Maria das campanhistas, Maria das Flores, Maria do fuso fiadora de linhas do nosso algodão. Dia 20 próximo passado, ela completou seus 81 anos. A comunidade mais ligada a ela almejou homenageá-la com uma festinha que coma presença de alguns parentes, compadres, afilhados e nós seus amigos festejamos por demais a felicidade da Maria. Não faltou violão, viola, vozes e o tradicional parabéns: "parabéns a você... o soprar da velinha..., com quem será que a Maria vai casar..., vai depender se..., vai querer..., "ele" aceitou, mas perguntou se a Maria aposentou?


Os causos de “Taíde” / O Caminho, ano I-Edição 03 - Pág.:04-Coluna/MG - Abril de 2009

Twitês

É mais ou menos assim,
Rs rs rs rs... sem sorrir
KKKK... sem gargalhar
e ainda tem o rá rá rá rá...













Coisas de Colunense

Se tem uma coisa que Colunense sabe fazer muito bem é se apresentar.
Colunense que é Colunense, não se apresenta com sobrenome ou profissão, mas sim com a “naturalidade” de quem diz: muito prazer meu nome é Fulano e eu sou de Coluna.

É mais ou menos assim que qualquer conterrâneo meu começa um bate papo com alguém que ele não conheça, seja dentro de um ônibus, em uma fila longa, em sala de aula, bares, orla de praia, rua onde mora e por ai vai.

Não é preciso muito tempo para que um Colunense encontre a oportunidade certa de contar alguma história da terrinha, ou ainda, convidar o novo
amigo a se hospedar por uns dias na cidade.

Convite feito é pé na estrada. Seja lá onde estiver ou como ir, e tanto faz se vai ser na virada de ano, carnaval, semana santa, no frio de julho, ou em qualquer outra época e data do ano. Está lá, um Colunense Ausente levando um amigo(a), namorado(a) ou noivo(o) para sentar-se nos bancos da praça, subir a Serra da Coluninha, tomar café nas “cozinhas dos parentes”, e confraternizar - sempre terá uma turminha reunida ao som de boa música e bom bate papo em algum lugar da cidade.

Como se não bastasse, o visitante é muitas vezes surpreendido com algumas iguarias servidas às refeições. Inhame cozido, por exemplo, amassado com leite e adoçado com açúcar ou rapadura, servido no café da manhã, é algo meio esquisito para o visitante, até que ele experimente e se surpreenda com um espontâneo “Unh! Esse troço é bom!”. Tem também a famosa banana verde frita o chá de amendoim, - amendoim torrado batido no liquidificador com leite e açúcar, fervido e servido quente em noites frias - dentre outros pratos, histórias, e situações que nada mais são que Coisas de Colunense.

Em tempo 2

O tempo de agora
É arredio,
Vazio e frio
Não como outrora

O tempo de agora
É Sombrio,
Causa arrepio
Tardia aurora

Ôh! Tempo de agora,
Vai-te embora!

Resgate

O que nos falta na vida?
O que nos falta em nossas noites longas,
madrugadas frias,
manhãs tristes
e tardes nubladas?

Falta-nos pouco!
Simplesmente, muito pouco!
Falta-nos som!
Falta o som emitido por vozes
Hora grave,
vezes aguda,
hora abafada,
outras engasgadas!

Falta-nos ouvir
Bom dia!
Eu te perdoou!
Eu peço desculpas!

Em tempo

Entre o ano seguinte e
O ano passado há
Meses

Entre o que fazer no ano seguinte
E o que fiz do ano passado
Existe apenas o Eu

Neutropénie


Les neutrophiles
Distrait
Docile
Incolore
Subtil

Les bactéries
Alertes
abus
Sans la peur
Viris

Os Causos do “Taíde”: Zé Cardoso e a defunta



Nos idos da vida muitas coisas deixaram nas pessoas doces e amargas recordações. Uma das doces eram os velórios e os cortejos fúnebres com os quais eram verdadeiras algazarras. Nos velórios, havia o corriqueiro fogo com banquinhos, tamboretes e cepos para os os bate papos, causos e piadas para enfrentar as duras noites, nas quais, a meia noite era servida uma farofa bem reforçada e irrigada a cachaça, vinho e licor de figo com gengibre. Por esta razão, quando falecia alguém, diziam: “fulano deu a farofa”!

O enterro, este era maior ainda a algazarra, juntava o pessoal, pegavam o caixão e começavam a gritar: “Mas pruquê qui num vai... vai, vai! Quando andavam uns três quilômetros sentiam que o defunto estava pesado, colocavam-no ao chão pegavam uma vara e davam uma surra no morto para que ficasse mais leve.

Certa ocasião faleceu uma senhora no Logradouro e a rapaziada da Várzea que era uma capetada foi ajudar buscar a defunta para o cemitério. Zé Cardoso sabendo do cortejo, logo se ofereceu e subiu com Joaquim Chaves, Cleres de Loiola, Araújo, Álvaro Janjão, Taíde, Sebastião da Benidita.

O Zé Cardoso havia comido muito bucho de boi com repolho, doce de batata e havia chupado muita laranja campista e lá no velório tinha bolo de fubá feito com soro, que ele comeu uns 10.

Aquilo foi fermentando. Chegando perto da Rita Quenta-fogo, Bebé Vitor então perguntou: “Má pergunta, quem vai ai? Prigunta muito boa é fulana de tal!... deixem eu carregar um pouquinho, pois ela era minha amiga!” Quando fizeram aquela paradinha para a troca de carregadores o Zé Cardoso que estava com a barriga lotada de vento descarregou tudo no nariz do Bebé que sentiu aquela catinga violenta e gritou: “Essa mulher morreu a muitos dias gente? Oceis pinta! Lá no coigo quando morre, nos interra logo, num deixa fedê não!” Foi uma gargalhada só, parece que até a defunta lá dentro do caixão deu risada. Coisa de Coluna.

Os causos de “Taíde” / O Caminho, ano I-Edição 07-Pág.:03-Coluna/MG - Agosto 2009


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Por detrás da serra


Ontem o sol nasceu
por detrás da Coluninha.
Hoje, é a Serra do Curral



Caminho para o Sol

Só se encontra o Sol
Passando
Pela madrugada

Primavera 2

Na primavera
Nem tudo são flores
Às vezes ócio

Primavera

Quando chega a primavera
Nem tudo são flores
Às vezes granizo

Ainda não terminou

Continuação de "Silêncio" 

Simplesmente resisto
Sem mais escrita
Sem término
Reticências

Simplesmente resisto, ainda não acabou
Sem mais escrita, sem fala, sem pausa
Sem término, sem final...
Reticências

Poema Objeto

Em si por si
Por linhas tortas
Quadros e poemas
Folhas em branco
Palavra chave
Verso abolido
Leituras possíveis
Possibilidade expressiva
Leituras possíveis
Verso abolido
Palavra chave
Quadros e poemas
Folhas em branco
Por linhas tortas
Em si por si

Gol do Galo

Pensei no verso
Lembrei das cores
Saudei a massa
Contemplei o lance.

De que vale a métrica?
De que importa a rima?
Pra que serve a técnica?

Se gritaram GOL
Se bradaram:
GALO!



De Pessoa a Drummond

Novos personagens

”Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.”


Estive em Coluna nesse fim de semana.
Andei pelas ruas, visitei parentes, contemplei as paisagens de minha infância.
Tantos personagens dessa grande peça já se foram...
Faltam tantas falas...
Nesse processo nostálgico estive pensando sobre o que me leva a voltar sempre ao mesmo lugar, sabendo que nada será como antes.
Talvez seja a certeza de que é necessário dar continuidade ao processo.
Contar uma nova história.
Somos, agora, os protagonistas.
Substitutos dos que já não são mais.
Novos, pequenos e grandes personagens esperam de nós um novo enredo.
E eles surgem para compor a cena.

E ... “O presente é tão grande ...”

É necessário que...
“Não nos afastemos muito...
Vamos de mão dadas...”

Adelina Correia. De Pessoa a Drummond

Os causos do “Taíde”: João Mendonça


Lá pelos 1950 oriundo da região do nosso município, chegou a Coluna, João Mendonça Ferreira.
Casado com a Maria foi a primeira casa a ser construída no alto do cruzeiro. O ambiente foi muito rápido, pois o Mendonça fazia tudo, era pau para toda obra e o lugar necessitava de pessoas assim.
Com a chegada de Padre Sady, não demorou muito para que os dois ficassem bons amigos. Era só o padre vê-lo na praça, descia as escadarias da casa paroquial para saborear do delicioso rapé que o Mendonça não dispensava por nada. Batiam papos, lembravam do seu Hermógenes, Espíndola, do Orozimbo e de todos os pioneiros que edificaram a nossa Igreja Matriz. Mendonça, às vezes bebia uma cachacinha a mais, e ficava meio serelepe, a ponto de sair do sério. Certo dia deu uma pulada fora, traindo assim a Dona Maria que não merecia tal atitude. Arrependido foi ao Padre Sady: “Louvado sois Cristo padre! Para sempre, Mendonça, o que se quer? Ah! Seu pade, que queria cunfessá! Confessar, Mendonça, o que você aprontou por ai? Eu mexi fora! O que? Você adulterou? Adulterar eu não sei que qui é não, o que sei é qui eu pulei a cerca! Cadê sua esposa, Mendonça? Coinfeito! Quero que o Senhor me perdoa e me dá a pinitência. Seeei! Pensou: ô meu caro, você vai rezar trezentos pai-nossos, trezentas ave-marias e trezentos glória ao Pai! Mas isso é muito, pade!... Seeei! Pode pagar em suaves prestações, mas, se houver reincidência, eu vou te mandar para as profundas do inferno! E o Mendonça saiu quebrando a cabeça, pensando: o que será essa tal de reincidência?


Os causos de “Taíde” / O Caminho, ano I-Edição 13-Pág.:03-Coluna/MG - Fevereiro 2010




Quero ir embora pra Pasárgada


Hoje acordei e fazer nada eu queria
Idealizava ser inútil por um dia
Esquecer obrigações, e sentir como seria

Durou pouco o devaneio
Afazer logo veio
Partiu ao desejo pelo meio

Desocupo do inútil
Vou cumprir agenda útil
De repente até fútil

Quero ir embora pra Pasárgada
Lá eu também sou amigo do rei
Lá sou amigo do poeta

Colibri


Entrou pela janela, um beija-flor
Inquieto, assoviou ao meu lado
Trazia prenúncio de um novo amor
E certeza de dias apaixonados

Rápido, gracioso, seguiu viagem
Bateu asas, saiu sem discrição
Talvez levasse outra mensagem
Dessas que alegram o coração

Paixões são sempre assim
Inesperadas, aparecem do nada
Às vezes têm triste fim
Às vezes, uma história encantada

Mas a pequena ave voltou
Com uma notícia um tanto incerta
“O estado afetivo acabou”
Meio sem fala avisei:
_ Vou deixar a janela aberta!

Leituras possíveis

No livro não lido e empoeirado,
Está escrito, que a vida passa.

Embora fiquem, escritos e livros.

É preciso antes de escrever,
Saber ler.

Consciência

Para a viagem: direção, companhia, paisagem.
Para fila: livro, papo, revista.
Para a noite: lua.
Para a solidão:
Companhia,
Paciência,
Oração.

Do papel ao [del]

O papel em branco
Não mais aflige a caneta
De carga cheia.

Quanto à tela vazia,
Essa sim incomoda
O cursor que pisca.

Homem urbano

Recolheste sozinho
Ao fone do “ipod
Recolheste a ti
Toda a música
Que o mundo tem

Procuraste pelo ônibus
Uma poltrona individual
Foges sem saber
Do elevador social

Intriga-se ao perceber
Tal atitude, tal fúria
Até certo prazer
Às vezes amargura
Homem urbano egoísta
Egometa, egocêntrico
Não importa a conquista
No final descontente

Vigília

Meia noite
Uma da madrugada
Duas da madrugada
Três da madrugada

Cuco!
Cuco!
Várias vezes cuco!
Quero manhã ensolarada

Cesse
Trovões
Relâmpagos
Tempestade
Vigília
Cesse

Nostalgia

Se perdido, não sei.
É simplesmente ver e ouvir.

Sobre a poesia e o poeta

Expressão de sentimento
Contida se liberta de dentro
Faz suspiros em tu, eles
Choro em ele, vós
Palavras se tornam “nós”

Poesia é solidão
Poeta é solitário
Talvez seja sim ou não
(So)neto involuntário

O poeta de nada tem certeza
Lêem poesia com clareza?
Tu, eles e vós identificais?

E o poeta descontente
Sente na alma a solidão
Um doer no coração
Não descrevi meu sentimento

Chuva

Precipitação atmosférica de água
Júbilo aroma, terra pantanosa
Infância etérea, brincadeira na enxurrada

O teto

Meia noite. Ao meu quarto me recolho
Meu Deus! E este teto! E, agora vede:
No concreto bruto sobre a parede,
Protege-me a pele, então me recolho.

Vou mandar derrubar a parede
Digo. Erguê-la ainda, somente com o olho
E olho o teto. E vejo-o ainda, intriga-me o olho
Figura imóvel sobre minha rede!

Levanto. Esforços faço. Chego, 
Quase a tocá-lo. Minh’alma se concentra.
Que arte produziu tão perfeito quadro?

A consciência humana é este teto!
Por mais que a gente a faça, a noite ele esta lá
Imperceptivelmente em nosso quarto.

Adaptado de: O Morcego - Augusto dos Anjos

Eu e o poeta

Afinei o violão
Com medo da harmonia
Os verbos conjuguei
Mas nada de poesia
Aflito e sem rima
Invoquei o poeta

O pintor das palavras falou,
que a rima não é solução
E com jeito de anjo torto
ele ainda sussurrou:
Você também é canhoto










Silêncio

Simplesmente resisto
                        Sem mais escrita
                        Sem término
                        Reticência

Os causos do “Taíde”: Joaquim Pereira


O folclore sempre marcou presença em nossa Coluna assim como a preservação da nossa cultura.
Na rua da várzea pertinho de Maria Vitorina, Nica de Bertulina, João da Esmeralda e Chico Tibucio morava Joaquim Pereira da Fonseca tio do nosso saudoso vice-prefeito Geraldo Pereira.
O Joaquim foi o maior comilão que nós vimos.
Em comícios, casamentos, em casa ou onde ia trabalhar, comia quase as panelas, gamelas e os talheres.
Certa vez o Nezinho seu irmão foi escolhido com dona Maria Chumbo para os patronos da Trezena de Santo Antonio. Nezinho o convidou para ajudá-lo angariar alguns leilões.
Desceram, chegaram à fazenda dos Aguiar, estava na hora da ordenha. Dona Sílvia havia feito café com leite e angu doce, ele tomou um copo de litro e dois “pratões” de angu doce.
Seguiram a viagem, no Sebastião Freitas dona Aninha estava fazendo requeijão, ele comeu um prato de ágata de requeijão quente e outro de doce de leite mole.
Desceram mais, lá no Pedralvo dona Negrinha havia apanhado um balaio de puxar milho de laranjas. Ele chupou a metade do balaio de laranjas serra d’água e campista.
No seu Miguel de Abreu ele achou o que mais gostava, bolo de fubá e brevidade. Comeu quase a gamela toda.
Nezinho preocupou-se e decidiu voltar como medo do Joaquim passar mal.
Chegaram!
Nezinho pediu ao Geraldo para saber de o Joaquim havia chegado bem, e se sentisse mal era para tomar bicarbonato.
Chegou, vovó?
Papai mandou eu perguntar se tio Joaquim chegou aqui bem?
“Chegou meu filho; chegou, comeu dois “pratões” de carne passadinha com quiabo e angu e ta dormindo”.
“Escuta pra você ver a altura do roncado dele e os tamanho dos puns que ele ta soltando”.
Foi quando ouviram: “Oh mãe, a carne passadinha com quiabo acabou?” “Se acabou a senhora faz um tutu com “seis ovo frito” que eu tô morrendo de fome”.
“Este meu filho! É pior que o monstro de Itamarandiba.”

Os causos de “Taíde” / O Caminho, ano I-Edição 04-Pág.:03-Coluna/MG - Maio 2009


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Peixe de aquário

Ser vertebrado respira por guelras
Sistema sensorial, diferentes células
Cores intensas, padrão fusiforme
Barbatanas longas, não sei quando dorme

Eu tenho um bem ali
Naquela cultura aquática
Naquele bojo minúsculo
Que lhe faz perder a prática

Esquecido se torna incógnito
Na sua gota oceânica
No seu ambiente insólito
De uma vida nem monogâmic

De Drummond a Neruda


Fiquei pensando num poema que a caneta não quis escrever

Tomei então este verso emprestado do poeta e resolvi deixar a tinta escorregar pelas linhas, ora calma, ora indecisa e muitas vezes, desatinada, sem destino.

E o tecido que se forma no papel borda as memórias que são como vento de outono, carregando folhas bailarinas...

A lembrança foge e brinca com nossos sonhos e desejos de infância.

Nosso tempo está além das montanhas da Coluninha, à léguas de nós que vagamos sem parar na estrada do sem fim.

“Saudade é sentir que existe o que não existe mais..."

Adelina Correia.De Drummond a Neruda/