Em nome do Galo!

Ó força que habita a camisa listrada.

Em teu manto pensei no verso

e nas cores vivas enxerguei a alma.

Saudei a massa, vibrante em coro,

contemplei o lance, em tempo lento,

quando o tempo dobrou o passe. 


De que serve a métrica,

se o coração explode em batidas desiguais?

De que vale a rima,

se a poesia está no grito que rompe o silêncio?

Para que importa a técnica,

se é a paixão que guia a jogada divina?


Pois gritaram GOL,

e num só clamor bradaram:

GALO!


E nesse grito ressoa o infinito.

Ó Espírito do Galo,

guia-nos na vitória e na fé,

faz do campo um altar,

e de cada gol, uma prece.


Em nome do Galo, Amém!

Pretérito

No tempo passado

O verbo guardara memórias 

Perfeitas que já vivera


Speculum

    Máscara e luz,

    Sombra e segredo,

    Sonho antigo,

    Ser inteiro.

Persona

   Desfaça 

   Disfarce

   A face 

Aqui estamos, olhando para você, tempo

No crepúsculo tênue de uma terça-feira outonal, eis-me aqui, na penumbra daquela cafeteria, onde os sorrisos se misturam aos murmúrios das horas que escorrem preguiçosas. Um cliente solitário, peregrino da tarde, ergue sua taça de espumante como um brinde à liberdade que se espraia pelos minutos mansos.

Que enigma é este, contemplar um homem a saborear a efervescência da vida em sua taça flute em pleno acaso do dia útil? A inveja se insinua, como uma sombra furtiva, ao testemunhar tal dança solitária com o tempo, esse senhor implacável que governa nossas existências.

E eu, mero espectador deste teatro mundano, me vejo enredado em um breve intervalo de não mais que um quarto de hora, quando as obrigações se calam e o relógio desacelera seu tic-tac incessante. Ah, que luxo é este? Permitir-se perder-se nos devaneios de uma tarde vadia, sem a tirania das demandas urgentes que nos afogam na rotina.

Meus olhos, ávidos por enredos, vagueiam pelas mesas e seus ocupantes. Alguns, dominados por seus deveres, escravos dos compromissos que os mantêm presos em suas demandas incessantes. Outros, mais serenos, desfrutam da doçura do tempo, como quatro senhoras que tecem histórias entre xícaras de chá e pedaços de bolo, mesmo que em luta com o próprio tempo.  

Há ainda aqueles que flertam com o efêmero, seduzidos pelas miragens da companhia, pelas páginas amareladas de um livro ainda não lido, ou pelo desfilar de belas figuras por entre as mesas. E há aqueles que simplesmente existem, entre olhares perdidos e suspiros contidos, testemunhando o brilho na tela do celular ou o vaivém da vida que se desenrola para além das janelas na avenida movimentada.

No final das contas, quem são estes viajantes do tempo, cujos destinos se entrelaçam brevemente neste refúgio de encontros e desencontros? Serão felizes, ou apenas flaneurs à deriva em caminhos incertos?

Ah, quem poderá decifrar os enigmas do espumante tardio, cujo brilho efêmero ilumina os corações solitários na penumbra da tarde? Talvez, assim como as bolhas que sobem em sua taça, sejamos todos transitórios meteoros neste vasto firmamento chamado vida, brilhando por um instante antes de desaparecer na imensidão do tempo.

Da Escuridão à Luz

Sob véus de ébano, a noite se desvela,

Em manto negro, o mundo se consome,

A alma em agonia, em busca daquela

Paz que no vento, apenas se some.


Nas trevas espessas, um eco lamenta,

Um murmúrio triste, em busca de alívio,

A solidão aperta, a dor atormenta,

Na vastidão noturna, em frágil fio.


Mas eis que a aurora, em esplendor desponta,

Com seus raios dourados, a terra banha,

Desfaz as sombras, a noite se pronta,

E desperta a esperança que se estranha.


Em tons de ouro, o mundo renasce e brilha,

A alma, em paz, na aurora se tranquila,

Celebra a vida com vigor que cintila,

Na eterna dança que o dia instila.



Haikai da Paralaxe

Olhar muda, mundo gira,

Certeza dissolve em névoa,

Nasce novo rumo.

Soneto 139

Mente, meu ser sondais, meu íntimo conheceis,

Do pensar que em mim surge, nada vos escapa,

Onde eu vá, estais presente, me envolveis,

E a minha vida em vossas mãos se chapa.


Antes da palavra em meus lábios se formar,

Já a conheceis, ó Mente de sabedoria,

Criastes-me com amor, me vieste moldar,

E me envolveis em vossa eterna alegria.


Onde irei, Mente, para de ti fugir? 

Se aos céus subo, lá estás em majestade,

Se ao inferno desço, tua mão me há de sentir.


As trevas não te escondem, pois tudo é luz,

Teus olhos penetram a alma em sua profundeza,

Teu amor me guia, me guarda e me conduz,

Em teus braços encontro paz e eterna beleza.


Desprendimento

Casulo translúcido estilhaça

Borboleta irrompe em chamas

Voo incandescente 

Silente Díptico

No sim do altar, renasce o verso,
Solidão silente ecoa no avesso.
Manto branco, desilusão se espalha,
Promessa oculta, trama que embalsama

Teia do tempo

No último suspiro do ano que se desfaz,

Preparativos para o novo, para o que jaz.

Iniciados

Três caminhos cruzam,

Cinco sentidos despertam, 

Sete espadas manejadas. 

Eu e a esfinge

De que importa decifrar o enigma?
De que vale resolver o tal quebra-cabeça?

A esfinge mantém-se firme
Ela nunca se atirou do precipício
Nem mesmo se estrangulou 

Quanto a mim,
Seja manhã, meio-dia, tarde
Quatro, dois, ou três pés
Devoro-me, a cada dia

 

Alquimia

Lendas e tesouros
Deserto, pirâmides e mago
Tudo vira poesia 

Tapete voador


Na pandemia
Isolado no tapete voador
Furo a quarentena

Caminho do sol

Siga na direção leste
na rua madrugada
em direção à rua
amanhecer.

Peixe de Aquário

Ser vertebrado respira por guelras
Sistema sensorial, diferentes células
Cores intensas, padrão fusiforme
Barbatanas longas, não sei quando dorme

Eu tenho um bem ali
Naquela cultura aquática
Naquele bojo minúsculo
Que lhe faz perder a prática

Esquecido se torna incógnito
Na sua gota oceânica 
No seu ambiente insólito
De uma vida nem monogâmica

Entre Tempos

Caminhei de costas
Tive medo do futuro
Não voltei ao passado
Nem permaneci no presente

Rever

De repente começo a rever.
Vejo mais uma vez.
Reencontro.
Releio, reconsidero.
Trago à memória novamente.
Tento fazer de trás pra frente.

Tente fazer de trás pra frente!
Traga à memória novamente,
Releia, reconsidere,
Reencontre.

Veja mais uma vez.
Comece a ReveR,
De trás pra frente.

Intervalo

Os versos fugiram, há tempo
Papel, caneta, lápis, teclado
Todos aqui, ao meu lado
Falta à pena, alento

Vira-latas

Uma mulher caminha por uma rua de pedra
Na calçada à esquerda, pouco antes da esquina
Uma cadela se junta a latas caídas da lixeira

Uma mulher caminha por uma rua estreita de pedra
Na calçada à direita, pouco antes da esquina
Uma cadela junta as latas caídas da lixeira

Uma mulher caminha por uma rua escura de pedra
Na rua, bem no meio, pouco antes da esquina
Uma cadela se assusta com latas atiradas a ela

Uma mulher caminha por uma rua de pedra
Na rua que termina, pouco depois da esquina
Uma cadela se junta a latas atiradas por ela


Se

O  voo atrasar
Hoje chover
O sinal cair
O verbo se impor
O ônibus não vir
Ela negar
Meu time perder


O avião pousar
O sol aparecer
A rede conectar
A canção compor
O motorista sorrir
Ela aceitar
O jogo vencer

Perfil

Corpo nu perfilado
Observo os seus brincos
Brinco. Mamilos tesos












A marcha dos versos vadios


Os versos reunidos
Ali em assembleia
Saíram em marcha

Foram todos por ai
Fantasiados de rimas
Vestidos de métrica

Saíram todos
Disfarçados de rimas
Escondidos de métrica

Em punho cartazes
Faixas e panfletos
Tudo em branco

O ansioso poeta
Perplexo, passivo
Revoltava-se
Com marcha
Das expressões

















Sobre coisas, lembranças e infância

De repente começo a recordar de coisas, das coisas, e quando percebo, já fui tomado pelas lembranças. As imagens chegam soltas, aleatórias. É como um álbum de fotografias aberto em qualquer página. Daí eu avanço, ou volto, permaneço por mais tempo em alguma foto, ou passo rapidamente por outras.

Pronto! Está ai, uma boa lembrança. Álbum de fotografias! Objeto em desuso, em tempo de máquina fotográfica digital. Hoje em vez de foliar um encadernado de retratos sobre o colo, acompanhamos sincronicamente a exibição de imagens frente à tela do computador.

Computador é algo que me faz ter outras lembranças. Penso em computador, passo pela impressora e chego ao mimeógrafo. É como se eu viajasse no tempo. Posso sentir o cheiro de álcool na folha ainda umedecida que a professora do ensino primário entregava. Não sei dizer se lição, prova ou qualquer outra atividade, mas posso sentir o aroma passear por entre o septo e os sentidos.

Cheiro de livro novo é outro que me faz lembrar escola. Cheiro tem esse poder transcendente de nos transportar mentalmente para tempos e talvez até mesmo espaços esquecidos. Cheiro de mato é outra coisa que me espanta e encanta. Basta sentir aquele perfume de terra misturado a orvalho, para como magia reconhecer e percorrer cenários que não mais existem, a não ser em minhas lembranças.

E por fim me dou conta de que todas essas lembranças se remetem à infância. Evidente que não poderia esquecer de citar a mais saborosa das lembranças. A infância. Época mágica, de sonhos, pura e protegida pelo amor materno.


Oficina de Haicai II

Palavras soltas
Bailam entre as orelhas
Escorrem pelos dedos

Soneto à luz da lua


Lua cheia derrama-se à janela
Além do astro, o brilho que vejo
É a chama de uma vela
Evidências de nosso desejo

Teu olhar vivo, teu sorriso aberto
Os olhos negros e a pele alva
O pulsar forte, você por perto
O beijo molhado, a sua alma

Corpus nus,  envolvidos
Mãos,  pés, deleite de amantes
Abraços, cheiros, gemidos

Carinhos aconchegantes
Um toque, um beijo mais atrevido
Sob cuidados do corpo brilhante

Noturno

Entre telas, teclados.
Volumes, edições.
Emissoras, programações.
Páginas!
Por vezes impressas.

Assim como antes
A noite não mudou
Mudaste a companhia.

Flashback

Com  flâneur
Toda a minha trajetória
Percorri agora











Entre lua e estrela

Uma estrela ciumenta
Twitou e postou no face:
"Carente em dias de Lua"

Oficina de Haicai

Cinco, sete, cinco
Números de loteria?
Não! Tentei haicai

Rubber Soul



Quisera eu ter “alma de borracha”
Apagar o lapsus que não escrevi
Traduzir o rubber soul

Alquimia

Palavras e frases
Papel, caneta e tela
Tudo vira poesia

Amor a três


Não sei se olho
Para o brilho da lua
Ou pra você nua

Felicidade Momentânea

Quantos poemas a compor,
festas para ir,
viagens a fazer,
bocas a beijar.

Quantas manhãs para dormir,
vinhos a beber,
músicas a dançar,
corpos a despir.

Quantos livros a ler,
ruas para andar.
Quantas orações a fazer,
quadros a pintar.

Quantas chuvas de verão para te banhar.

Vá! Arrebata-te! Liberta-te!
Seja feliz! Depois volte!

Colibri

Entrou pela janela, um beija-flor
Inquieto, assoviou ao meu lado
Trazia prenúncio de um novo amor
E certeza de dias apaixonados

Rápido, gracioso, seguiu viagem
Bateu asas, saiu sem discrição
Talvez levasse outra mensagem
Dessas que alegram o coração

Paixões são sempre assim
Inesperadas, aparecem do nada
Às vezes têm triste fim
Às vezes, uma história encantada

Mas a pequena ave voltou
Com uma notícia um tanto incerta
“O estado afetivo acabou”
Meio sem graça falei:
Vou deixar a janela aberta!




Preâmbulo

Meu livro é de poemas pobres
Às vezes também não opulentos
Mas tem a fúria da arte devaneia

Erupção de vulcão que ainda dorme
Testemunho exato de trabalho erudito
Neologismo, neolatino, correm dentre veias

Tolice!
Não existe livro algum
Sim páginas dobradas
Na gaveta da escrivaninha.












Peixe de aquário

Ser vertebrado respira por guelras
Sistema sensorial, diferentes células
Cores intensas, padrão fusiforme
Barbatanas longas, não sei quando dorme

Eu tenho um bem ali
Naquela cultura aquática
Naquele bojo minúsculo
Que lhe faz perder a prática

Esquecido se torna incógnito
Na sua gota oceânica
No seu ambiente insólito
De uma vida nem monogâmica














Poesia de janela

Da minha janela
Eu vejo a rua, a lua
Também a chuva

Eu vejo o céu
Hora cinza, vez azul

Da minha janela 
Eu vejo o quadro
A tela que não pintei

Eu "vejo" a canção
O acorde que não toquei

Da minha janela
Eu vejo o sol nascer
Eu vejo o pôr do sol

Eu vejo os versos 
Poesia que não escrevi


O teto

Meia noite. Ao meu quarto me recolho
Meu Deus! E este teto! E, agora vede:
No concreto bruto sobre a parede,
Protege-me a pele, então me recolho.

Vou mandar derrubar a parede
Digo. Erguê-la ainda, somente com o olho
E olho o teto. E vejo-o ainda, intriga-me o olho
Figura imóvel sobre minha rede!

Levanto. Esforços faço. Chego
Quase a tocá-lo. Minh’alma se concentra.
Que arte produziu tão perfeito quadro?

A consciência humana é este teto!
Por mais que a gente a faça, a noite ele esta lá
Imperceptivelmente em nosso quarto.

Adaptado de: O Morcego - Augusto dos Anjos

Ritual, decisão e desencontro parte dois



Para ler a primeira parte clique aqui:

Em linha reta. Um caminho só. De um círculo para outro. Passando em frente a igreja, Ele se viu fazendo seus votos de amá-la e respeitá-la. Um círculo. Os anelares. Mais adiante, na outra esquina, a viagem para Paris em lua-de-mel. Eles seguiam perfeitos e juntos. Ele já imaginava que som teria a risada Dela ao brilho das luzes, por entre o aroma dos cafés.

Uma rua movimentada. Cuidado. Pararam, entreolharam-se. O primeiro obstáculo. Atravessaram juntos. Ele, de peito arfado; Ela, de respiração rápida e ofegante. Vieram outras esquinas. As buzinas lembrariam então os avisos que ela deixaria na porta da geladeira para Ele dar banho no cachorro, ou consertar a pia que vaza, ou então que, pelo amor de Deus, compre um tênis novo para as caminhadas.

Dobram a primeira esquina. Ela já não é tão bonita com o rabo de cavalo atrapalhado. Ele observa a paisagem ao redor, e a cor do asfalto tem cor de cansaço. Tem cheiro de escritório. As moças ocupadas que passam com muita pressa prendem a atenção Dele. Mas a floricultura o faz imaginar qual seria a cor favorita Dela. “A linha é reta. Não tanto o desejo”, Ele pensa.

No parque principal, ele sentiu o perfume que vinha dos cabelos Dela. Tinham cheiro de bebê. Como aqueles que saem da maternidade, dependentes e frágeis, viciados nos pais. Seria Ela uma grávida bonita? O corpo firme, o cabelo sedoso e os belos olhos grandes teriam um brilho novo carregando o fruto de um amor tão certo. Ele seria o marido que vigia os enjôos, realiza os desejos e diz que não, amor, você não está tão inchada. A linha reta formaria o laço.

Ele estava decidido: era linha que ele queria. Era o caminho único que fazia sentido. Pensou consigo: “Atravessaremos esta ponte e eu pedirei o telefone dela.” E durante o caminho, ele sentiu suas mãos suarem, as pupilas dilatarem e o coração acelerar. Ele poderia ouvir o pulsar que vinha do coração Dela também. Ela sorriu, suspirou alto e disse:

“- Amor!”

Assustado, Ele correu os olhos pelo parque e, no fim da ponte, enxergou o Amor. Era moreno, mais alto um pouco que Ela e tinha um sorriso franco e tranqüilo, típico dos que amam. Ela e o Amor se abraçaram e se beijaram ternamente.

E a linha acabou bem ali, no Amor. Ironicamente, pensou: “No final, todos acabam andando em círculos, perdidos por entre as suas certezas.”

Naiara Martel (Macapá) que se define como adoradora de eufemismos é a Dona do blog “Do Quarto Verde”, espaço que ela diz escrever o tudo aquilo que se perde em cadernos e listas que saem de dentro do seu quarto. Acesse http://doquartoverde.blogspot.com/ e conheça o trabalho de Naiara.












Ensaio

Poema  Ensaio  publicado no Lapsus Calame é recitado por João Lenjob



Ensaio por João Lenjob - Castelo do Poeta

Ansiava compor um soneto,
Forma fixa, pequeno poema.
Duas quadras, dois tercetos,
produzidos em determinado tema.

Consultei os principais sonetistas,
Estudei com afinco, alexandrismo e clássico.
Por vez fiquei muito otimista,
mesmo em infração ao verso decassilábico.

Engajei-me em tarefa difícil,
a expressão do sentimento lírico.
Mas há de valer todo sacrifício.

Tal impertinente fantasia
envolvida em ambiente quase místico
em busca da completa poesia.

Ano passado?



O Ano Passado

O ano passado não passou,
continua incessantemente.
Em vão marco novos encontros.
Todos são encontros passados.

As ruas, sempre do ano passado,
e as pessoas, também as mesmas,
com iguais gestos e falas.
O céu tem exatamente
sabidos tons de amanhecer,
de sol pleno, de descambar
como no repetidíssimo ano passado.
Embora sepultos, os mortos do ano passado
sepultam-se todos os dias.
Escuto os medos, conto as libélulas,
mastigo o pão do ano passado.




E será sempre assim daqui por diante.
Não consigo evacuar
o ano passado.
Carlos Drummond de Andrade 

Sons Tribais




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Ensaio

Ansiava compor um soneto.
Forma fixa, pequeno poema.
Duas quadras, dois tercetos
produzidos em determinado tema

Consultei os principais sonetistas.
Estudei com afinco, alexandrimos e clássico.
Por vez fiquei muito otimista
mesmo em infração ao verso decassilábico.

Engajei-me em tarefa difícil,
a expressão do sentimento lírico.
Há de valer todo sacrifício.

Tal impertinente fantasia
envolvida em ambiente quase místico
em busca da completa poesia.

Poesia ao dois do onze

Ela não se despediu dele com o lenço em punho
ou acenando ao vê-lo partir a bordo do transatlântico.
Não sorriu depois do beijo que ele soprou em sua direção
na estação de trens.
Nem lacrimejou após a aeronave levantar vôo
na pista de decolagem.

Não ouve suspiro, nem grito dor.
O silêncio ocupou o ambiente.
Ela apenas fechou os olhos.
Assim se despediu dele para sempre.

Eu e o poeta

Afinei o violão
Com medo da harmonia
Os verbos conjuguei
Mas nada de poesia
Aflito e sem rima
Invoquei o poeta

O pintor das palavras falou,
que a rima não é solução
E com jeito de anjo torto
ele ainda sussurrou:
Você também é canhoto




Biza e o Ipê-amarelo


A manhã fria de julho já ocupara o lugar da noite, que fora longa e também fria, quando aquela mulher -vou chamá-la de Biza- que dormia na calçada acordou.

Devagar ela se desfez das folhas de jornal que cobriam-lhe o corpo fingindo proteger-lhe a pele, se contorceu sobre o colchão de papelão formado pelos restos de uma caixa de TV e esfregou os olhos como quem é despertado com o abrir inconveniente de uma cortina.

Imóvel e apresentando certa indisposição para começar mais um dia incerto, ela observou as pessoas indo e vindo, a padaria movimentada, o vai e vem dos pedestres e os automóveis barulhentos pela avenida da grande cidade.

Então, como se tivesse o tempo a seu favor, Biza levantou-se lentamente, recolheu seus pertences – uma colher de metal, algumas peças velhas de roupa e um copo plástico tipo descartável – e acomodou-os com cuidado em uma sacola de supermercado achada ao lado de um Ipê-amarelo. Após esses movimentos que pareciam ser tão rotineiros, sentou-se debaixo dessa árvore, que assim como Biza, insistia e resistia aos maus tratos da cidade.

Não demorou muito e ela começou a cochichar ao lado do Ipê. O monólogo era difícil de entender, pois falava baixinho e fazia alguns gestos repetitivos sem muito sentido. Tomado pela curiosidade tentei decifrar o que Biza dizia ao Ipê. Minha investida foi em vão, não consegui identificar o que era dito. Talvez falasse sobre suas histórias; amores, verdades, desilusões. Talvez falasse das flores amarelas que caiam. Talvez contasse o sonho que tivera durante a noite. Talvez fizesse uma prece.

Imagem: ipe-mareloavare http://goo.gl/2nMmG

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