Entre Ritos e Rituais: Equinócios e Solstícios

No interior silencioso do Templo, a Luz é outra. Não vem de fora. Emana do Altar, escorre pelas Colunas, e se espalha no chão quadriculado, entre símbolos e alegorias, sentida por todos ali reunidos. 

É fim de ano. Dá pra perceber. Não pelo calendário, mas pelo jeito que os Irmãos se movem. Um pouco mais lentos. Um pouco mais atentos. Como quem sabe que alguma coisa está virando, mesmo sem saber exatamente o quê.

As cadeiras rangem baixo quando alguém se ajeita. Um pigarro aqui, outro ali. Conversas curtas, quase cochichadas. Nada demais. Coisa de passagem de ano mesmo. Tem Irmão fazendo balanço mental, isso é visível. Olhar fixo em lugar nenhum. Deve estar contando erros, acertos, promessas que não cumpriu e outras que nem lembra de ter feito, mas também vibrando pelo desbastar da pedra, pelos vícios aprisionados em masmorras assim como pela construção diária de cada templo. Todo dezembro faz isso com a gente, um verdadeiro teletransporte à Câmara de Reflexões. 

Seja no Oriente ou Ocidente, alguém ajeita o avental com mais cuidado do que o necessário. Não é vaidade. É respeito. Ou talvez costume. O gesto é antigo, repetido há anos, mas hoje carrega outra intenção. Como se dissesse silenciosamente após ajustá-lo: Justo e Perfeito. 

Tem sempre aquele Irmão mais falante, mas hoje, um pouco quieto. Fim de ano também cala os expansivos. O riso fácil dá lugar a um sorriso curto, meio de canto. E está tudo bem. Ninguém estranha. O templo acolhe essas pausas.

Aqui, até o silêncio tem Cargo.

O tempo parece diferente entre as Colunas Zodiacais e a Grande Corda com seus 81 nós. Cada minuto é ajustado entre Esquadro, Nível e Prumo. Não é cansaço do ano que finda, é significado. Doze meses cabem fácil num olhar que fita o Delta. Cada quadrado preto e branco parece guardar um tropeço, uma escolha, um desvio que ensinou alguma coisa. Ou não. Às vezes a lição só vem depois.

Alguém comenta, em tom de brincadeira, que o ano foi puxado. Outro responde que todos são. Um terceiro solta um “mas a gente segue”, e fecha o assunto. Não precisa falar muito. Todo mundo entendeu.

No fundo, é isso. Um Templo, alguns homens e um fim de ano atravessando todos ao mesmo tempo. Todos, olhando para o mesmo tempo, esse velho conhecido que não se deixa dominar, só respeitar.

Quando a sessão se encerra, ninguém sai apressado. 

Ficam mais uns minutos. 

Ajustam coisas que não estão fora do lugar.

Trocam apertos de mão e abraços fraternais. 

Desejam bom ano sem muita cerimônia. Porque sabem. O que importa não é a virada do relógio. É a disposição de continuar lapidando, sem deixar Maço e Cinzel falharem. 

E assim seguimos. 

Entre Colunas, Ritos e Rituais, Equinócio e Solstícios: Iniciados, Elevados, Exaltados e Remidos. 

Uma Prancha de cada vez.