Ritual, decisão e desencontro parte dois



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Em linha reta. Um caminho só. De um círculo para outro. Passando em frente a igreja, Ele se viu fazendo seus votos de amá-la e respeitá-la. Um círculo. Os anelares. Mais adiante, na outra esquina, a viagem para Paris em lua-de-mel. Eles seguiam perfeitos e juntos. Ele já imaginava que som teria a risada Dela ao brilho das luzes, por entre o aroma dos cafés.

Uma rua movimentada. Cuidado. Pararam, entreolharam-se. O primeiro obstáculo. Atravessaram juntos. Ele, de peito arfado; Ela, de respiração rápida e ofegante. Vieram outras esquinas. As buzinas lembrariam então os avisos que ela deixaria na porta da geladeira para Ele dar banho no cachorro, ou consertar a pia que vaza, ou então que, pelo amor de Deus, compre um tênis novo para as caminhadas.

Dobram a primeira esquina. Ela já não é tão bonita com o rabo de cavalo atrapalhado. Ele observa a paisagem ao redor, e a cor do asfalto tem cor de cansaço. Tem cheiro de escritório. As moças ocupadas que passam com muita pressa prendem a atenção Dele. Mas a floricultura o faz imaginar qual seria a cor favorita Dela. “A linha é reta. Não tanto o desejo”, Ele pensa.

No parque principal, ele sentiu o perfume que vinha dos cabelos Dela. Tinham cheiro de bebê. Como aqueles que saem da maternidade, dependentes e frágeis, viciados nos pais. Seria Ela uma grávida bonita? O corpo firme, o cabelo sedoso e os belos olhos grandes teriam um brilho novo carregando o fruto de um amor tão certo. Ele seria o marido que vigia os enjôos, realiza os desejos e diz que não, amor, você não está tão inchada. A linha reta formaria o laço.

Ele estava decidido: era linha que ele queria. Era o caminho único que fazia sentido. Pensou consigo: “Atravessaremos esta ponte e eu pedirei o telefone dela.” E durante o caminho, ele sentiu suas mãos suarem, as pupilas dilatarem e o coração acelerar. Ele poderia ouvir o pulsar que vinha do coração Dela também. Ela sorriu, suspirou alto e disse:

“- Amor!”

Assustado, Ele correu os olhos pelo parque e, no fim da ponte, enxergou o Amor. Era moreno, mais alto um pouco que Ela e tinha um sorriso franco e tranqüilo, típico dos que amam. Ela e o Amor se abraçaram e se beijaram ternamente.

E a linha acabou bem ali, no Amor. Ironicamente, pensou: “No final, todos acabam andando em círculos, perdidos por entre as suas certezas.”

Naiara Martel (Macapá) que se define como adoradora de eufemismos é a Dona do blog “Do Quarto Verde”, espaço que ela diz escrever o tudo aquilo que se perde em cadernos e listas que saem de dentro do seu quarto. Acesse http://doquartoverde.blogspot.com/ e conheça o trabalho de Naiara.