Biomecânica do Tempo

Última semana do ano. A academia muda de humor. O som é o mesmo, o ferro continua pesado, mas tem algo no ar. Um tipo de cansaço que não vem do treino. Vem dos meses. Do acúmulo. Do que foi feito e do que ficou pra depois.

Entro e percebo. Menos pressa. Mais conversa. Gente treinando sem muita convicção, só pra não quebrar o pacto consigo mesmo. O corpo até vai, mas a cabeça já está em outro lugar. Praia, estrada, sofá. Natal passado. Ano que vem. Tudo junto e misturado. Deve ser o tal de loucura com doideira. 

Um rapaz corre na esteira com cara de retrospectiva. Cada passo parece lembrar alguma coisa que deu certo. Ou não. A esteira marca quilômetros, mas o que é medido mesmo são os dias, os meses. Ele diminui a velocidade, olha pro painel, suspira. Dá um sorriso torto. Deve ter entendido alguma coisa ali. Ou desistido de entender.

No canto, uma senhora faz exercícios leves. Devagar. Sem culpa. Sem meta de verão. Ela treina como quem agradece. O corpo responde no tempo dele. Não disputa. Não corre atrás. Só segue. É bonito de ver. Ensina sem querer.

Perto dos halteres, dois caras falam de planos. Janeiro isso. Fevereiro aquilo. Projeto novo, ciclagem nova, vida nova. Promessas em voz alta. O ferro desce, a conversa sobe. Um deles ri e solta: esse ano eu vou. Ninguém pergunta pra onde. Todo mundo entende.

Eu faço minha série sem muita ambição. Sem recorde, só presença. Entre uma repetição e outra, olho meu reflexo no espelho. Não vejo músculo. Vejo um ano inteiro tentando dar conta. Vejo falhas. Vejo insistência. Vejo alguém que não parou. Já é alguma coisa.

O celular vibra. Mensagens de feliz isso, próspero aquilo. Emojis, brindes virtuais, palavras repetidas. Respondo algumas. Outras deixo pra depois. Nem toda mensagem precisa de resposta imediata. O tempo, nesse fim de ano, parece aceitar atrasos.

Quando o treino acaba, fico sentado um minuto a mais. Só respirando. O suor escorre, o barulho diminui, o ano também. Lá fora, o mundo corre pra fechar antes que os ponteiros marquem zero hora. Aqui dentro, alguém levanta o último peso de dezembro.

Saio da academia com a sensação estranha de quem não terminou nada, mas também não deixou tudo inacabado. O ano foi isso. Séries incompletas. Tentativas honestas. Algumas dores. Alguns ganhos.

E o tempo, esse parceiro silencioso de treino, segue ali. 

Não faz retrospectiva. 

Não promete nada. 

Só continua e a gente chama isso de ano novo.


Entre Ritos e Rituais: Equinócios e Solstícios

No interior silencioso do Templo, a Luz é outra. Não vem de fora. Emana do Altar, escorre pelas Colunas, e se espalha no chão quadriculado, entre símbolos e alegorias, sentida por todos ali reunidos. 

É fim de ano. Dá pra perceber. Não pelo calendário, mas pelo jeito que os Irmãos se movem. Um pouco mais lentos. Um pouco mais atentos. Como quem sabe que alguma coisa está virando, mesmo sem saber exatamente o quê.

As cadeiras rangem baixo quando alguém se ajeita. Um pigarro aqui, outro ali. Conversas curtas, quase cochichadas. Nada demais. Coisa de passagem de ano mesmo. Tem Irmão fazendo balanço mental, isso é visível. Olhar fixo em lugar nenhum. Deve estar contando erros, acertos, promessas que não cumpriu e outras que nem lembra de ter feito, mas também vibrando pelo desbastar da pedra, pelos vícios aprisionados em masmorras assim como pela construção diária de cada templo. Todo dezembro faz isso com a gente, um verdadeiro teletransporte à Câmara de Reflexões. 

Seja no Oriente ou Ocidente, alguém ajeita o avental com mais cuidado do que o necessário. Não é vaidade. É respeito. Ou talvez costume. O gesto é antigo, repetido há anos, mas hoje carrega outra intenção. Como se dissesse silenciosamente após ajustá-lo: Justo e Perfeito. 

Tem sempre aquele Irmão mais falante, mas hoje, um pouco quieto. Fim de ano também cala os expansivos. O riso fácil dá lugar a um sorriso curto, meio de canto. E está tudo bem. Ninguém estranha. O templo acolhe essas pausas.

Aqui, até o silêncio tem Cargo.

O tempo parece diferente entre as Colunas Zodiacais e a Grande Corda com seus 81 nós. Cada minuto é ajustado entre Esquadro, Nível e Prumo. Não é cansaço do ano que finda, é significado. Doze meses cabem fácil num olhar que fita o Delta. Cada quadrado preto e branco parece guardar um tropeço, uma escolha, um desvio que ensinou alguma coisa. Ou não. Às vezes a lição só vem depois.

Alguém comenta, em tom de brincadeira, que o ano foi puxado. Outro responde que todos são. Um terceiro solta um “mas a gente segue”, e fecha o assunto. Não precisa falar muito. Todo mundo entendeu.

No fundo, é isso. Um Templo, alguns homens e um fim de ano atravessando todos ao mesmo tempo. Todos, olhando para o mesmo tempo, esse velho conhecido que não se deixa dominar, só respeitar.

Quando a sessão se encerra, ninguém sai apressado. 

Ficam mais uns minutos. 

Ajustam coisas que não estão fora do lugar.

Trocam apertos de mão e abraços fraternais. 

Desejam bom ano sem muita cerimônia. Porque sabem. O que importa não é a virada do relógio. É a disposição de continuar lapidando, sem deixar Maço e Cinzel falharem. 

E assim seguimos. 

Entre Colunas, Ritos e Rituais, Equinócio e Solstícios: Iniciados, Elevados, Exaltados e Remidos. 

Uma Prancha de cada vez. 



Efeito Perspectiva

De repente me dei conta do copo. Estava meio cheio. Não é filosofia, foi descuido mesmo. Servi água demais e agora precisava beber com atenção. Devagar. Para não derramar. Pensei que isso talvez fosse maturidade.

Da janela, a rua parecia curta. Duas esquinas conhecidas, uma árvore que insiste em crescer no cimento, um carro estacionado no mesmo lugar de ontem. Tudo muito previsível. Resolvi ir a pé, de chinelo. Só para espairecer. No meio do caminho percebi algo estranho. A rua insistia. Não ficava maior, mas demorava mais. Cada passo parecia pisar fora de ritmo. O corpo combinou outra velocidade com o tempo.

O relógio seguia normalmente. Olhei para ele mais de uma vez. O ponteiro cumpria seu papel. A pressa inventava desvios. Cheguei ao destino, ou ao que pensei que fosse, um pouco fora de mim e chamei isso de cansaço.

Os prédios estavam no mesmo lugar. As pessoas repetiam gestos quase automáticos. O mundo seguia alheio.

Em algum momento pensei que aquilo tivesse um nome. Perspectiva, talvez. Dar nome ajudava pouco.

E segui o dia.

Com o copo ainda meio cheio.

Ou meio derramando.

Aquém do Além

Toda vez que tento nomeá-lo 
ele se desfaz.
Toca o nada, se dissolve,
entre um pensamento que cala
e outro que ainda não fala.

Talvez o além exista aí,
no acidente da consciência,
quando o passo vacila no tropeço.
Leve demais para ser certeza,
firme demais para ser ignorado.

Fragmento do Self

Sou ruim de sonhos,
mas das coisas que vivi,
sonho acordado.

Última notificação

O celular vibrou no bolso. Um pulso tímido e breve. Ele deixou ali, quieto, como se não tivesse sentido o leve manifestar do aparelho.

A festa acontecia em dois lugares ao mesmo tempo. No real, o ar se ocupava de perfumes e conversas. No virtual, os rostos brilhavam, as taças pareciam mais cheias, as cores mais vivas.

Sorriu quando apontaram uma câmera para ele. Primeiro um sorriso curto, quase de canto. Depois um mais aberto, para garantir que não ficaria estranho na foto. Há tempos estudava o próprio ângulo, conhecia a inclinação da cabeça que rendia mais curtidas.

Perto da varanda, um casal se abraçava. Entre eles e o mundo, um celular apoiado registrava o momento em silêncio. A legenda viria depois. Algo sobre amor ou eternidade.

Foi então que percebeu o silêncio escondido sob o barulho. A música ainda tocava, mas parecia distante, como se viesse de outra sala. As palavras já não formavam frases, apenas ruídos de lábios que se abrem e fecham.

Deixou o copo sobre a mesa. Não sentiu o vidro frio e úmido escapar de seus dedos. Olhou ao redor. Se saísse agora, ninguém notaria.

Atravessou a sala devagar e abriu a porta. O ar de fora era mais frio. Ficou parado, olhando a rua quase vazia. Tentou respirar fundo. Fechou os olhos. Não registrou nada.

No bolso, o celular em silêncio. 

Nenhuma notificação nova.

Criptografia da Alma

Criptografaram minha alma
num poema sem vogais
pra que ninguém
compreenda
nem
eu


Eco no Âmbar

No fundo do copo,
um silêncio pede voz 
memória que arde.

Poesia do Palimpsesto

O semáforo ainda estava vermelho quando percebi o cartaz no muro descascado: três anúncios sobrepostos, cada um alterando a existência do anterior. Por baixo de uma promoção de pizza, surgia a sombra de um show sertanejo que, por sua vez, encobria a oferta de um curso de inglês vencido há meses. Ali, naquela esquina, o passado não era história, era realidade alterada em tempo real. E foi nessa esquina de cola, papel e parede que me dei conta: talvez a nossa memória funcione exatamente assim, um palimpsesto urbano.

Dias atrás, no arrasta de uma rede social, tropecei numa frase sobre um experimento: a decisão de agora define se a luz se comportou como onda ou partícula ontem. Não entendo de física, mas a ideia me perseguiu. Se um gesto tardio pode redesenhar o destino de um fóton que já partiu, como defendia o experimento, então nossas escolhas de hoje talvez também possam reescrever episódios que entendemos como encerrados, não com efeitos especiais, mas com a edição silenciosa que fazemos quando revisitamos lembranças.

Recordo as idas à roça quando criança, às vezes a pé: chuva fina, cheiro de terra, pés descalços afundando na lama enquanto eu, menino, praguejava contra aquele suposto pior dia. Anos depois, revendo a cena, descubro que ali surgiram inspirações que fundamentariam, por exemplo, a escrita de um conto ou crônica. O fato permaneceu; o significado, não.

Nesse caso, talvez a saudade ou lembranças sejam menos arquivo e mais software em constante atualização. Sempre que abro a pasta “infância”, encontro arquivos renomeados: a bronca que doeu converte‑se em gesto de cuidado, a timidez na festa vira charme discreto. Nada mudou, exceto o ângulo do meu olhar, e esse olhar age como um programador de linhas temporais.

Alguns temem mexer no passado, mas toda lembrança é narração escolhida. A foto da família reunida nada revela sobre quanto tempo levou até as crianças aceitarem posar ou sorrir. Captura apenas o instante congelado. Cada revisita, porém, cria legenda inédita: cabelos que mudaram, roupas fora de moda, rostos que já partiram. Do mesmo registro brotam novas histórias. Talvez o presente, em silêncio, reescreva o passado.

O sinal ficou verde, o trânsito seguiu, e o cartaz da esquina já recebia outra propaganda. Talvez, em poucos dias, eu passe pelo mesmo lugar e não reconheça a promoção de pizza. Tudo bem. Cada camada é um retrato legítimo do instante congelado.

O sentido final? 

Depende de quando e de como escolhemos olhar.

Backups do Infinito

Há arquivos que não salvamos, mas vivemos tentando zipar a eternidade em 24 horas.

Talvez haja uma nuvem onde os "e se" estejam disponíveis. Um drive que só a alma acesse, quando se faz upload de silêncio.

Quem sabe, a intuição seja um download não autorizado de algo que a gente não compreende.

Não sei se lembro ou se invento. Acho que faço backups daquilo que me escapa.

Backup do Infinito

Há um silêncio que só a madrugada conhece. Não é ausência de som, é ausência de distração. Nele, escuto notificações que não chegam, mensagens que nunca foram escritas, vozes que talvez nunca tenham falado. E me pergunto: onde ficam guardadas as coisas que não vivemos?

Vivemos cercados de backups: do celular, do computador, da nuvem, da memória externa. Tentamos salvar tudo: fotos de um sorriso que já não lembramos por que surgiu, conversas capturadas no calor do instante e arquivadas no frio da distância, ou músicas que um dia embalaram o que agora já não pulsa.

Mas e aquilo que não foi dito? E o que quase foi vivido? Onde ficam armazenadas as palavras que engolimos, os abraços que não demos e os caminhos que deixamos de seguir?

Talvez exista um servidor secreto no tempo. Um drive onde os “e se” continuam vivos, dançando como partículas incertas entre o agora e o nunca. Talvez a alma, essa abstração que chamamos de nossa, também tenha um sistema de backup, não para restaurar o passado, mas para lembrar quem fomos antes de esquecer.

Às vezes, em meio a um clique distraído ou num olhar perdido no reflexo de uma tela, acessamos esse backup. No entanto, não sabemos dizer se estamos lembrando do que aconteceu ou do que poderia ter sido. Mas sentimos, talvez isso baste.

Fico pensando no tempo, do alto de sua última versão, zombando da nossa pressa, enquanto nós, cronômetros ansiosos, insistimos zipar em 24 horas o que só cabe na eternidade.

Talvez o tempo espiritual, esse que não se mede, mas se percebe, esteja rodando em segundo plano, como um aplicativo silencioso, esperando a chance de dizer: “Uma nova atualização está disponível”.

Quem sabe um dia a ciência consiga traduzir isso em código. Ou talvez já tenha traduzido, e o que chamamos de intuição seja apenas um download autorizado por algo que não compreendemos.

Enquanto isso, sigo aqui, digitando no escuro, salvando mais uma vez aquilo que nunca quero perder: a dúvida, a busca, e essa estranha sensação de que o agora não dá conta de tudo o que eu carrego.

Por fim concluo: eu faço backups. 


Entre louça, roupa e vinho

Fred e Sofia tinham um pacto silencioso sobre a divisão das tarefas domésticas: ele esquecia, e ela lembrava por ele.

Naquela noite, porém, Sofia decidiu que não ia lembrar. Pelo contrário, ia esperar para ver até onde ia a amnésia seletiva de Fred.

Sentou-se no sofá, abriu um vinho e ficou observando. O caos se instalava lentamente, como uma experiência sociológica.

A pia transbordava de pratos. O cesto de roupa suja parecia um manifesto contra a civilização. E Fred? Sentado à mesa, lendo um artigo sobre comportamento organizacional corporativo.

Sofia pigarreou.

— Interessante como certos indivíduos se adaptam ao descontrole ambiental sem demonstrar sinais de incômodo.

Fred levantou os olhos.

— O que foi, amor?

Ela sorriu.

— Nada. Só analisando como você está confortável nesse experimento sobre o conceito de entropia doméstica.

Fred franziu a testa.

— Entropia?

— Sim. A tendência natural ao caos. Parece que, se ninguém intervir, o universo — ou melhor, a pia — caminha para um estado de desordem máxima.

Ele bebeu um gole de vinho, tentando ganhar tempo.

— Você tá querendo dizer que… era minha vez de lavar a louça?

— Estou dizendo que a própria noção de “vez” é uma construção social que precisa ser desconstruída. 

Fred suspirou balbuciando: inferno! 

— Sofia, se você queria que eu lavasse a louça, era só falar.

— Interessante. A mulher pede, o homem executa. Poderíamos chamar isso de um modelo fordista da divisão doméstica?

— Ah, pronto. O jantar virou um debate sobre os meios de produção.

Ela riu e estendeu a garrafa para ele.

— Não, Fred. O jantar já foi. Agora só sobrou a louça.

Ele sabia que estava encurralado. Levantou-se, pegou o pano de prato e foi até a pia.

— Tá bom, Sofia. Mas, enquanto eu lavo, você pode pelo menos estender a roupa?

Sofia fez uma pausa dramática, bebeu um gole de vinho e respondeu:

— Eu até poderia… mas será que o papel da mulher como “gestora da lavanderia” não precisa ser questionado?

Fred fechou os olhos e respirou fundo.

— Tá bom, filósofa. Mas amanhã sou eu que escolho o tema do seu vídeo no YouTube.

— Fechado.

E assim, entre louça, roupa e vinho, Fred e Sofia equilibraram mais uma noite: roupas jogadas ao chão do quarto. 

O Ponto no Centro do Círculo

Era uma manhã comum, ou deveria ser. O café esfriava na xícara enquanto eu girava a colher em círculos, assistindo ao movimento da espuma se dissipar lentamente. O mundo ao redor seguia seu ritmo previsível, passos apressados na calçada, conversas murmuradas, mensagens piscando na tela do celular. Tudo parecia se mover dentro de um ciclo sem fim.

Mas havia algo naquela manhã que não se encaixava.

No canto da mesa, um guardanapo rabiscado, esquecido, exibia um círculo com um ponto no centro. Um símbolo simples, mas inquietante. Passei os dedos sobre o desenho, sentindo a textura do papel, foi como se aquilo contivesse um um mistério, um augusto segredo, que eu já conhecesse, mas nunca antes decifrara.

O ponto era um começo ou um fim? O círculo o protegia ou o aprisionava?

Peguei o lápis e redesenhei aquele traço com mais precisão. O ponto fixo no meio da curva perfeita, a forma mais simples e, ao mesmo tempo, a mais completa e complexa: justa e perfeita. Pensei no que ele poderia significar: o homem no centro da criação, a busca pelo conhecimento, o equilíbrio entre ordem e caos, a iniciação. 

E então, me ocorreu: quantos de nós passamos a vida sem nunca tocar esse centro?

Nos movemos todos os dias dentro de limites invisíveis: obrigações, rotinas, expectativas. Repetimos gestos, toques e palavras, giramos em torno de ideias conhecidas, sem jamais ousar atravessar a fronteira do círculo. Como se tivéssemos preparo suficiente para encarar o que há no meio, o mistério silencioso que espera.

Olhei ao redor. As pessoas seguiam suas trajetórias,marchas, inconscientes do símbolo ali diante de mim. O centro não é um limite, mas um portal.

Talvez seja esse o verdadeiro trabalho: encontrar o ponto, reconhecer sua presença e saber que ele sempre esteve lá. O caminho não está fora, mas dentro.

Terminei o café, dobrei o guardanapo e o guardei no bolso.

O mundo continuava o mesmo. Mas agora, eu sabia.

O círculo protege, mas o ponto chama.

O melhor amigo do homem

O cão?
O gato?
O ChatGPT?

De lobos e algoritmos, todo mundo tem um pouco

Sempre se debateu: quem domesticou quem? 

O cachorro, esparramado no sofá como se pagasse o aluguel, não parece muito interessado na resposta. Ele levanta a cabeça com aquela elegância desleixada, só para lembrar: "Tá na hora do meu petisco, servo humano." E lá vai o dono, antes do próximo latido, pronto para cumprir sua função na cadeia alimentar moderna: garçom canino.

Mas a cena tem mais um personagem. No canto da sala, a voz de uma inteligência artificial decide entrar no jogo: "A ração está acabando. Deseja fazer um pedido?" O aparelho é direto, eficiente, e ligeiramente agressivo, como quem diz: "Se eu não lembrasse, sua incompetência deixaria o pobre animal passar fome."

Enquanto o pet reina no sofá e a máquina organiza a vida, o homem tenta não se sentir um estagiário na própria casa. "Não esqueça que tem episódio novo da sua série", avisa o assistente digital. "E leve a coleira amanhã, caso queira manter alguma dignidade": alerta novamente o assistente virtual ao piscar luzes em cores diferentes.

O dono, agora mero executor de ordens caninas e tecnológicas, se resigna. A hierarquia da casa é tão clara quanto um contrato de operadora de celular.

Naquela noite, ele se joga no sofá, tentando relaxar. Na TV, um documentário sobre os primórdios: um homem, uma fogueira e um lobo selvagem. Ele ri sozinho. "Como isso virou... isso?" pergunta, olhando para o cachorro que está, literalmente, de barriga para cima.

O cão responde com aquele olhar que mistura amor e desprezo. A voz digital não perde a chance de provocar: "Eu prefiro não opinar sobre assuntos existenciais."

E lá está ele, sentado, olhando o quadro: o cachorro que domina o sofá, a IA que controla sua agenda e ele mesmo, o elo mais fraco na cadeia do progresso. Quem realmente está no comando? 

O cão tem o conforto. A máquina tem os dados. E ele? Ele tem contas para pagar, perguntas demais na cabeça, e o leve pressentimento de que está sendo domesticado.